sábado, 6 de novembro de 2010

O Constante Diálogo



Há tantos diálogos

Diálogo com o ser amado
                   o semelhante
                   o diferente
                   o indiferente
                   o oposto
                   o adversário
                   o surdo-mudo
                   o possesso
                   o irracional
                   o vegetal
                   o mineral
                   o inominado

Diálogo consigo mesmo
                   com a noite
                   os astros
                   os mortos
                   as ideias
                   o sonho
                   o passado
                   o mais que futuro

Escolhe teu diálogo
                           e
tua melhor palavra
                         ou
teu melhor silêncio.
Mesmo no silêncio e com o silêncio
dialogamos.

Carlos Drummond de Andrade, in 'Discurso da Primavera'

  
Trabalho elaborado pelos alunos do 2º ano
 

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Obras literárias - 3º ano


                               Dois Irmãos - Milton Hatoum 
Milton Hatoum  possui descendência libanesa, foi professor universitário em Manaus. Ganhou vários prêmios pela produção dos livros: Relato de um certo oriente, Dois IrmãosCinzas do Norte.
 Dois Irmãos baseia-se na desestruturação do núcleo familiar de uma família de libaneses, o drama tem como foco o conflito entre os irmãos gêmeosYaqub e Omar. Além disso, insinua o encesto envolvendo Zana e o caçula,  também  retrata a relação amorosa entre Rânia e os seus irmãos Omar e Yaqub. O encesto não é concretizado em nenhuma das situações, mas dá margem a essa interpretação. Outro fato desagregador é a insatisfação de Halim com o relacionamento de Zana com os filhos, não queria ter filhos, imaginava uma vida de prazeres com a mulher.

Slides: Mar Morto e Dois Irmãos
http://www.screencast.com/t/YeV7uZZP
Mais informações no site:
http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/d/dois_irmaos

PARANGOLIVRO

  • lUTILIZAÇÃO DE TERMOS CHULOS E PALAVRÕES
  • lVALORIZAÇÃO DO COTIDIANO
  • lEU LÍRICO DOTADO DE CONSCIÊNCIA CRÍTICA
  • lPOLIFONIA (CITAÇÃO DE ARTISTAS RELACIONADOS À MÚSICA, AO CINEMA E À PRÓPRIA LITERATURA 
     SLIDES
    http://www.screencast.com/t/wORCppoN7zh

    Contos de aprendiz, de Carlos Drummond de Andrade


    Contos de aprendiz foi publicado em 1951. Foi a estréia de Carlos Drummond de Andrade como contista. Nessa época já havia publicado seus livros mais importantes - Alguma Poesia e Sentimento do Mundo - que o consagraram como um dos maiores poetas brasileiros.

    A obra reúne 15 contos da maior ternura, incluindo aquele que é um exemplo do limite do real com o fantástico: "Flor, telefone, moça". Drummond conta as histórias que acontecem ou podem acontecer, na medida em que o acaso ou outro poder as torna possíveis, com o auxílio da imaginação alerta. Drummond gosta de relatar aquilo que parece o mínimo porém está cheio de significado na memória de cada um, como a surpresa e a decepção do primeiro sorvete, ou uma briga de irmãos que transforma a penitência infantil em pecado. Ou senão, a simples troca de palavras entre um homem e uma mulher, no coletivo, em que o olhar perturbado entra com sua carga de sensualidade. E ainda o devaneio da moça que prepara as figuras do presépio, na véspera de Natal, com o pensamento não no que fazia, mas no namorado. Drummond escreve uma prosa limpa, evidentemente com prazer - o prazer de contar sem intenção de brilhar.

    O livro remexe em lembranças da infância do poeta, passando muitas vezes a falsa impressão de um livro de memórias. As histórias reunidas em Contos de aprendiz exercem uma relação franca como mundo, mexendo com os encantos da memória para desencantá-los e permitir que eles se mostrem como o que de fato são: mitos.

    A poesia de Drummond é algo que extrapola o gênero poético, podendo se revelar em qualquer parte, mesmo em contos delicados e de aparência despretensiosa, mas fortes, como os de Contos de aprendiz.

    A trama dos contos oscila entre a descoberta da cidade interiorana, seus códigos de comportamento, angústias e alegrias, e momentos inusitados na vida atropelada da então capital do país. A metrópole enlaça e abraça os seus habitantes, para mais pungente tornar a solidão humana. Sobressai-se nestes contos a presença de uma voz amiga. Como diz o próprio contista, "é doce ouvir amigos, ainda quando não falam, porque amigo tem o dom de se fazer compreender até sem sinais. Até sem olhos".

    Em Contos de aprendiz, ao lado da contida, mas intensa expressão de afeto e rejeição ao absurdo do mundo, perspassa um humor irônico em relação à diferença entre o que os homens mostram ou parecem ser e o que são, uma das tônicas da visão deste poeta que se definiu como "um gauche na vida". Livro que insere o misticismo e o mito da poesia, mas que remete para uma trama sempre curta, onde poucos personagens acabam, num tempo curto, chegando ao fim de suas problemáticas ou deixando-as à média rés, como, aliás, acontece freqüentemente.

    No cronista, o espírito ávido de denúncias se ocupa sempre do povo e de seus problemas, dando ao leitor de hoje uma visão sincrônica de tudo quanto ele, na pele de seus concidadãos, vivenciou e sofreu. A obra drummondiana se mantém atualizada em nossos dias; dela se depreende a visão crítica de um mundo cujas conseqüências repercutem ainda em nossas existências.

    Como já vimos, muitos dos contos se realizam sobre as recordações dos tempos infantis, estando assim impregnados de suave ondulação emocional, colocando o leitor tão próximo de outra realidade, que ele fica pensando que, se houve por ali algum cronista, ele acabou sufocado pelo peso da narrativa ou, como quer o poeta, “pelo mau cheiro da memória”. Há também contos de maior fôlego, como o já citado “Flor, telefone, moça” e “O gerente”, que participam de um superior tratamento da matéria ficcional. Neles estamos diante de exemplos de perfeição no gênero. Drummond conseguiu imprimir sobre estruturas tradicionais a graça, a diafaneidade, a poesia e o mistério dos contos modernos, criando uma atmosfera de penumbra em que a linguagem mais sugere que descreve, e em que o leitor se vê obrigado a participar da obra para tentar descobrir as suas mais íntimas intenções.

    Quanto à sua concepção de conto, ela aparece quase sempre indiretamente: tem de ser depreendida e compreendida pelo leitor. Em Contos de aprendiz há uma pequena nota (que não aparece na sexta edição da Aguilar) em que se diz que a coisa que mais o fascinava (Drummond) nas histórias ouvidas quando criança, não era o enredo, o desfecho, a moralidade; e sim um aspecto particular da narrativa, a resposta de um personagem, o mistério de um incidente, a cor de um chapéu...

    Contos escolhidos:

    1. PRESÉPIO

    Dasdores (assim se chamavam as moças daquele tempo) sentia-se dividida entre a Missa do Galo e o presépio. Se fosse à igreja, o presépio não ficaria armado antes de meia-noite e, se se dedicasse ao segundo, não veria o namorado.

    É difícil ver namorado na rua, pois moça não deve sair de casa, salvo para rezar ou visitar parentes. Festas são raras. O cinema ainda não foi inventado, ou, se o foi, não chegou a esta nossa cidade, que é antes uma fazenda crescida. Cabras passeiam nas ruas, um cincerro tilinta: é a tropa. E viúvas espiam de janelas, que se diriam jaulas.

    Dasdores e suas numerosas obrigações: cuidar dos irmãos, velar pelos doces de calda, pelas conservas, manejar agulha e bilro, escrever as cartas de todos. Os pais exigem-lhe o máximo, não porque a casa seja pobre, mas porque o primeiro mandamento da educação feminina é: trabalharás dia e noite. Se não trabalhar sempre, se não ocupar todos os minutos, quem sabe de que será capaz a mulher? Quem pode vigiar sonhos de moça? Eles são confusos e perigosos. Portanto, é impedir que se formem. A total ocupação varre o espírito. Dasdores nunca tem tempo para nada. Seu nome, alegre à força de repetido, ressoa pela casa toda. "Dasdores, as dálias já foram regadas hoje?" "Você viu, Dasdores, quem deixou o diabo desse gato furtar a carne?" "Ah, Dasdores, meu bem, prega esse botão para sua mãezinha”. Dasdores multiplica-se, corre, delibera e providencia mil coisas. Mas é um engano supor que se deixou aprisionar por obrigações enfadonhas. Em seu coração ela voa para o sobrado da outra rua, em que, fumando ou alisando o cabelo com brilhantina, está Abelardo.

    Das mil maneiras de amar, ó pais, a secreta é a mais ardilosa, e eis a que ocorre na espécie. Dasdores sente-se livre em meio às tarefas, e até mesmo extrai delas algum prazer. (Dir-se-ia que as mulheres foram feitas para o trabalho... Alguma coisa mais do que resignação sustenta as donas-de-casa.) Dasdores sabe combinar o movimento dos braços com a atividade interior — é uma conspiradora — e sempre acha folga para pensar em Abelardo. Esta véspera de Natal, porém, veio encontrá-la completamente desprevenida. O presépio está por armar, a noite caminha, lenta como costuma fazê-lo no interior, mas Dasdores é íntima do relógio grande da sala de jantar, que não perdoa, e mesmo no mais calmo povoado o tempo dá um salto repentino, desafia o incauto: "Agarra-me!" Sucede que ninguém mais, salvo esta moça, pode dispor o presépio, arte comunicada por uma tia já morta. E só Dasdores conhece o lugar de cada peça, determinado há quase dois mil anos, porque cada bicho, cada musgo tem seu papel no nascimento do Menino, e ai do presépio que cede a novidades.

    As caixas estão depositadas no chão ou sobre a mesa, e desembrulhá-las é a primeira satisfação entre as que estão infusas na prática ritual da armação do presépio. Todos os irmãos querem colaborar, mas antes atrapalham, e Dasdores prefere ver-se morta a ceder-lhes a responsabilidade plena da direção. Jamais lhes será dado tocar, por exemplo, no Menino Jesus, na Virgem e em São José. Nos pastores, sim, e nas grutas subsidiárias. O melhor seria que não amolassem, e Dasdores passaria o dia inteiro compondo sozinha a paisagem de água e pedras, relva, cães e pinheiros, que há de circundar a manjedoura. Nem todos os animais estão perfeitos; este carneirinho tem uma perna quebrada, que se poderia consertar, mas parece a Dasdores que, assim mutilado e dolorido, o Menino deve querer-lhe mais. Os camelos, bastante miúdos, não guardam proporção com os cameleiros que os tangem; mas são presente da tia morta, e participam da natureza dos animais domésticos, a qual por sua vez participa obscuramente da natureza da família. Através de um sentimento nebuloso, afigura-se-lhe que tudo é uma coisa só, e não há limites para o humano. Dasdores passa os dedos, com ternura, pelos camelinhos; sente neles a macieza da mão de Abelardo.

    Alguém bate palmas na escada; ô de casa! amigas que vêm combinar a hora de ir para a igreja. Entram e acham o presépio desarranjado, na sala em desordem. Esta visita come mais tempo, matéria preciosa ("Agarra-me! Agarra-me!"). Quando alguém dispõe apenas de uns poucos minutos para fazer algo de muito importante e que exige não somente largo espaço de tempo mas também uma calma dominadora — algo de muito importante e que não pode absolutamente ser adiado - se esse alguém é nervoso, sua vontade se concentra, numa excitação aguda, e o trabalho começa a surgir, perfeito, de circunstâncias adversas. Dasdores não pertence a essa raça torturada e criadora; figura no ramo também delicado, mas impotente, dos fantasistas. Vão-se as amigas, para voltar duas horas depois, e Dasdores, interrogando o relógio, nele vê apenas o rosto de Abelardo, como também percebe esse rosto de bigode, e a cabeleira lustrosa, e os olhos acesos, dissimulados nas ramagens do papel da parede, e um pouco por toda parte.

    A mão continua tocando maquinalmente nas figuras do presépio dispondo-as onde convém. Nada fará com que erre; do passado a tia repete sua lição profunda. Entretanto, o prazer de distribuir as figuras, de fixar a estrela, de espalhar no lago de vidro os patinhos de celulóide, está alterado, ou subtraí-se. Dasdores não o saboreia por inteiro. Ou nele se insinuou o prazer da missa? Ou o medo de que o primeiro, prolongando-se, viesse a impedir o segundo? Ou um sentimento de culpa, ao misturar o sagrado ao profano, dando, talvez, preferência a este último, pois no fundo da caminha de palha suas mãos acariciavam o Menino, mas o que a pele queria sentir sentia, Deus me perdoe — era um calor humano, já sabeis de quem.
    Aqui desejaria, porque o mundo é cruel e as histórias também costumam sê-lo, acelerar o ritmo da narrativa, prover Dasdores com os muitos braços de que ela carece para cumprir com sua obrigação, vestir-se violentamente, sair com as amigas — depressa, depressa, ir correndo ladeira acima, encontrar a igreja vazia, o adro já quase deserto, e nenhum Abelardo. Mas seria preciso atribuir-lhe, não braços e pernas suplementares, e sim outra natureza, diferente da que lhe coube, e é pura placidez. Correi, sôfregos, correi ladeira acima, e chegai sempre ou muito tarde ou muito cedo, mas continuai a correr, a matar-vos, sem perspectiva de paz ou conciliação. Não assim os serenos, aqueles que, mesmo sensuais, se policiam. O dono desta noite, depois do Menino, é o relógio, e este vai mastigando seus minutos, seus cinco minutos, seus quinze minutos. Se nos esquecermos dele, talvez pule meia hora, como um prestidigitador furta um ovo, mas, se nos pusermos a contemplá-lo, os números gelam, o ponteiro imobiliza-se, a vida parou rigorosamente. Saber que a vida parou seria reconfortante para Dasdores, que assim lograria folga para localizar condignamente os três reis na estrada, levantar os muros de Belém. Começa a fazê-lo, e o tempo dispara de novo. "Agarra-me! Agarra-me!" Nas cabeças que espiam pela porta entreaberta, no estouvamento dos irmãos, que querem se debruçar sobre o caminho de areia antes que essa esteja espalhada, na muda interrogação da mãe, no sentimento de que a vida é variada demais para caber em instantes tão curtos, no calor que começa a fazer apesar das janelas escancaradas — há uma previsão de malogro iminente. Pronto, este ano não haverá Natal. Nem namorado. E a noite se fundirá num largo pranto sobre o travesseiro.

    Mas Dasdores continua, calma e preocupada, cismarenta e repartida, juntando na imaginação os dois deuses, colocando os pastores na posição devida e peculiar à adoração, decifrando os olhos de Abelardo, as mãos de Abelardo, o mistério prestigioso do ser de Abelardo, a auréola que os caminhantes descobriram em torno dos cabelos macios de Abelardo, a pele morena de Jesus, e aquele cigarro — quem botou! — ardendo na areia do presépio, e que Abelardo fumava na outra rua.

    2. UM ESCRITOR NASCE E MORRE

    I

    Nasci numa tarde de julho, na pequena cidade onde havia uma cadeia, uma igreja e uma escola bem próximas, umas das outras, e que se chamava Turmalinas. A cadeia era velha, descascada na parede dos fundos, Deus sabe como os presos lá dentro viviam e comiam, mas exercia sobre nós uma fascinação inelutável (era o lugar onde se fabricavam gaiolas, vassouras, flores de papel, bonecos de pau). A igreja também era velha, porém não tinha o mesmo prestígio. E a escola, nova de quatro ou cinco anos, era o lugar menos estimado de todos. Foi aí que nasci: Nasci na sala do 3º ano, sendo professora D. Emerenciana Barbosa, que Deus tenha. Até então, era analfabeto e despretensioso. Lembro-me: nesse dia de julho, o sol que descia da serra era bravo e parado. A aula era de geografia, e a professora traçava no quadro-negro nomes de países distantes. As cidades vinham surgindo na ponte dos nomes, e Paris era uma torre ao lado de uma ponte e de um rio, a Inglaterra não se enxergava bem no nevoeiro, um esquimó, um condor surgiam misteriosamente, trazendo países inteiros. Então, nasci. De repente nasci, isto é, senti necessidade de escrever. Nunca pensara no que podia sair do papel e do lápis, a não ser bonecos sem pescoço, com cinco riscos representando as mãos. Nesse momento, porém, minha mão avançou para a carteira à procura de um objeto, achou-o, apertou-o irresistivelmente, escreveu alguma coisa parecida com a narração de uma viagem de Turmalinas ao Pólo Norte.

    É talvez a mais curta narração no gênero. Dez linhas, inclusive o naufrágio e a visita ao vulcão. Eu escrevia com o rosto ardendo, e a mão veloz tropeçando sobre complicações ortográficas, mas passava adiante. Isso durou talvez um quarto de hora, e valeu-me a interpelação de D. Emerenciana :

    — Juquita, que que você está fazendo?

    0 rosto ficou mais quente, não respondi. Ela insistiu:

    — Me dá esse papel aí. . . Me dá aqui.

    Eu relutava, mas seus óculos eram imperiosos. Sucumbido, levantei-me, o braço duro segurando a ponta do papel, a classe toda olhando para mim, gozando já o espetáculo da humilhação. D. Emerenciana passou os óculos pelo papel e, com assombro para mim, declarou à classe:

    — Vocês estão rindo do Juquita. Não façam isso. Ele fez uma descrição muito chique, mostrou que está aproveitando bem as aulas.

    Uma pausa, e rematou:

    — Continue, Juquita. Você ainda será um grande escritor.

    A maioria, na sala, não avaliava o que fosse um grande escritor. eu próprio não avaliava. Mas sabia que no Rio de Janeiro havia um homem pequenininho, de cabeça enorme, que fazia discursos muito compridos e era inteligentíssimo. Devia ser, com certeza, um grande escritor, e em meus nove anos achei que a professora me comparava a Rui Barbosa.

    A viagem ao Pólo foi cuidadosamente destacada do caderno onde se esboçara, e conduzida em triunfo para casa. Minha mãe, naturalmente inclinada à sobrestimação de meus talentos, julgou-me predestinado. Meu pai, homem simples, de bom-senso integral, abriu uma exceção para escutar os vagidos do escritorzinho. Ganhei uma assinatura do Tico-Tico, presente régio naqueles tempos é naquelas brenhas, e passei a escrever contos, dramas, romances, poesias e uma história da guerra do Paraguai, abandonada no primeiro capitulo para. alívio do Marechal Lopez.

    II

    Escrevi. Escrevi. Deixei Turmalinas. No internato, fui redator da Aurora Ginasial, onde um padre introduziu criminosamente, em minha descrição da primavera, a expressão "tímidas cecéns", que me indignou. Cá fora, revistas literárias passaram a abrigar-me com assiduidade. Em uma delas meu retrato apareceu, com adjetivos. Não me pagavam nada, nem eu podia admitir que literatura se vendesse ou se comprasse. Quantas vezes meu coração bateu quando os dedos folheavam, trêmulos, o número de sábado, ainda cheirando a tinta de impressão! Publicou... Não publicou... E sempre a descoberta do meu trabalho, ainda em plena rua, despertava a sensação incômoda do homem que foi encontrado nu e não teve tempo de cobrir as partes pudendas. Eu escondia meu crime, orgulhoso de tê-lo cometido, fazendo da literatura um segredo de masturbação. Havia semanas em que o Fon-Fon!, o Para Todos, a Careta e a Revista da Semana publicavam simultaneamente trabalhos de minha humilde lavra, todos ou quase todos poemas em prosa, em que me especializara. Nem sempre havia numerário suficiente para adquirir todas as revistas, e então o copo de leite quente, com pão e manteiga, à noite, antes de ir para a pensão, sacrificava-se com galanteria às belas-letras.

    Escrevi muito, não me pejo de confessá-lo. Em Turmalinas, gozei de evidente notoriedade, a que faltou, entretanto, para duração, certo trabalho de jardinagem. É verdade que Turmalinas me compreendia pouco, e eu a compreendia menos. Meus requintes espasmódicos eram um pouco estranhos a uma terra em que a hematita calçava as ruas, dando às almas uma rigidez triste. Entretanto, meu nome em letra de fôrma comovia a pequena cidade, e dava-lhe esperança de que o meu talento viesse a resgatar o melancólico abandono em que, anos a fio, ela se arrastava, com o progresso a 50 quilômetros de distância e cabritos pastando na rua.

    Não houve resgate, e a cidade esqueceu-me. Nunca mais voltei lá. De lá ninguém me escreveu, pedindo para fazer uma página sobre o Pico do Amor ou a Fonte das Sempre-Vivas. Meus parentes espalharam-se ou morreram. 0 escritor tornou-se urbano.

    III

    Publiquei três livros, que foram extremamente louvados por meus companheiros de geração e de pensão, e que os críticos acadêmicos olharam com desprezo. Dois volumes de contos e um de poemas. Distribuí as edições entre jornais, amigos, pessoas que me pediram, e mulheres a quem eu desejava impressionar.

    Sobretudo entre as últimas. Minha tática, de resto bem simples, consistia em jamais pronunciar ou sugerir a palavra literatura. Eu não era um literato que se anunciava, mas um homem que, no fundo, sofria por saber-se literato. Minha literatura assumia feição estranha, com alguma coisa de nativo e contrariado na origem, mas vegetando não obstante.

    — O senhor escreve coisas lindíssimas, eu sei...

    — Calúnia de meus inimigos. Infelizmente, é impossível viver sem fazer inimigos. Eles é que espalham isso, não acredite...

    Meu sorriso ambíguo, de dentes não suficientemente íntegros (ganhei fama de irônico por causa do sorriso envergonhado) sublinhava a intenção discreta da negativa.

    O sujeito afastava-se, impressionado. Muitas reputações nacionais não se estabelecem de outro modo. Eu escrevia.

    IV

    Escrevia realmente para que, escrevia por quê? Autor, tipógrafo e público não saberiam responder. Eu não tinha projetos. Não tinha esperanças. A forma redonda ou quadrada do mundo me era indiferente. A maior ou menor gordura dos homens, sua maior ou menor fome não me preocupavam. Sabia que os homens existem, que viver não é fácil, que para mim próprio viver não era fácil, e nada disso contaminava meus escritos. Dessa incontaminação brotara, mesmo, certa vaidade. "Artista puro", murmurava dentro de mim a vozinha orgulhosa. "Não traia o espírito", acrescentava outra voz interior (borborigmo, talvez). Como o espírito não protestasse, eu me atribuía essa dignidade exemplar, feita de gratuidade absoluta. E escrevia. Rente a meu ombro, outros rapazes faziam o mesmo. E não queríamos nada, não esperávamos nada. Éramos muito felizes, embora não soubéssemos, como acontece geralmente.

    O meu, o nosso individualismo fundamental proibia-nos o aconchego das igrejinhas. Éramos ferozmente solitários. Em cada Estado do Brasil, uma academia de letras reunia os gregários, distribuía louros inofensivos. Esses louros repugnavam-me, e os acadêmicos, geralmente pessoas sem complexidade, eram a meus olhos monstros de intolerância, inveja, malícia e incompreensão, intensamente misturadas. O fato de terem quase todos mais de 45 anos apenas adoçava esse sentimento de repulsa, para introduzir nele um grão de piedade triste. Em verdade, ter mais de 45 anos era não somente absurdo como prova de extrema infelicidade. Até certo ponto, os acadêmicos mereciam simpatia. Como os dromedários, animais estranhos que não podem ser responsabilizados pelo gênero de vida que lhes impõe o vício de nascença.

    Fugindo aos mais velhos, seria natural que nos ligássemos uns aos outros, os de 20 a 25 anos. Cultivávamos mais ou menos os mesmos preconceitos. As mesmas fobias em cada um de nós. Desgraçadamente, elas nos impunham o cauteloso afastamento recíproco, e nossas conversas de bar, noite afora, tinham traços de ferocidade e autoflagelação. Entretanto...

    Licurgo, que compusera comigo o "Poema do Cubo de Éter", descobriu certa noite o tomismo, e eu o expulsei de minha convivência. Mas, sua voz, continuou pregando os novos tempos, perturbando almas sedentas de verdade e metafísica.

    Aleixanor, tendo comprado num sebo as Cartas aos Operários Americanos, de Lenine, e começando a colaborar no Grito Proletário, sofreu de minha parte uma campanha de descrédito intelectual. Voltou-se para a ação política, fundou sindicatos, escreveu e distribuiu manifestos, e desfrutou de certa notoriedade até o golpe de 35, quando emudeceu.

    A poetisa Laura Brioche fundou um Clube de Psicanálise, que procurei desmoralizar na primeira reunião, introduzindo sub-repticiamente entre os sócios, antes da votação dos estatutos, volumosa quantidade de uísque, genebra e gim. A sessão dissolveu-se em álcool, mas restaram aqui e ali grupos de bem-aventurados que se entretinham na interpretação onírica e confrontavam gravemente seus respectivos complexos, recalques e ambivalências.

    Fundaram-se sucessivamente, a Associação dos Amigos dos Livros de História, a Academia dos Gramáticos de Ouro Preto, um Curso de Alimentação Racional, a Sociedade de Aculturação Ário-Africana, o Grupo Deus-Pátria-Justiça-Ensino Profissional, o Clube Esperantista Limitado, o Instituto de Genética.

    Todos, em redor de mim, se iam afirmando, fixando.

    Todos optavam. Nos jornais, passavam do suplemento de domingo à página editorial. Alguns recebiam manifestações de apreço, outros eram chamados a trabalhar em gabinetes de secretários de Estado. Vários compraram lotes, começaram a edificar. Um deles, extraordinário, conquistou um cartório. A floração de filhos, vitoriosos em concursos de puericultura, afirmava o rumo seguro de minha geração.

    Eu perseguia o mito literário, implacavelmente, mas, sem fé. Nunca meus poemas foram mais belos, meus contos e crônicas mais fascinantes do que nesse tempo de crescente solidão. Solidão, solidão... Era só o que havia em torno a mim, dentro em mim. Era como se eu morasse numa cidade que, pouco a pouco, fosse ficando deserta. Algum tempo mais, não haveria ninguém para dirigir os sinais luminosos nas esquinas, dar corda aos relógios, velocidade aos bondes, carne, pão e fruta às casas. De resto, para que bondes, relógios?... Já não havia ninguém, todos se haviam mudado para as cidades em frente, ao norte, ao sul, e eu passeava lugubremente minha solidão nas ruas que ressoavam a meu passo, ruas que outrora me eram familiares, e agora pareciam escurecer, mudar de forma, de cheiro: de tal modo estavam ligadas a uma época, uma geração, um estado de espírito que se decompunham... Tudo ia escurecendo... escurecendo... Mas eu andava, eu continuava, eu não queria acreditar...

    Risquei um fósforo, já sob a escuridão absoluta, e na lâmpada que minhas mãos em concha formavam, percebi que tinha feito 30 anos. Então morri. Dou minha palavra de honra que morri, estou morto, bem morto.
    Fonte:
    http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/c/contos_de_aprendiz

    Solombra, Cecília Meireles

    O livro possui uma linguagem abstrata e metafórica. O título Solombra, evoluindo do latim para Sombra, remete ao leitor todo o mistério e simbologia da noite e  da ausência enquanto presença daquilo que se foi. A morte é amplamente abordada e, em alguns trechos, o eu lírico demonstra aceitar o convite final, como aquele que segue o vento, mensageiro da morte.

    Características da obra

     
    Linguagem metafórica ( caráter neossimbolista)
    Misticismo filosófico
    Abstração e imprecisão
    Constantes questionamentos (uso de interrogações e de pronomes de segunda pessoa). 

    Slides 
    http://www.screencast.com/t/hcoLE05m3
    Mais detalhes no site:
    http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/s/solombra

    terça-feira, 2 de novembro de 2010

    Projeto Sarau Poético




    APRESENTAÇÃO
               
    O recital poético é uma manifestação artística que tem como princípio valorizar a arte literária e outras manifestações culturais a ela associadas. As apresentações  propostas nesse trabalho estão condizentes com esse propósito e foram  desenvolvidas pelos alunos do Ensino Médio,  IENSA, ao longo do ano letivo. O recital, portanto, é o momento de divulgação dos trabalhos realizados e será apresentado no dia da família em 20/11/10.  Os professores organizadores são: Flávia (literatura), Raquel (artes) e Vladimir (filosofia), no entanto, todos os professores deverão auxiliar na execução do projeto.

    JUSTIFICATIVA

                Por sua beleza e melodia os poemas são textos muito significativos para os alunos, que lhes possibilitam a construção de um vínculo mais estreito.
                Investigar o poema as palavras que o compõem, a sua estrutura, a habilidade do autor ao compô-lo constituem uma oportunidade rica para os alunos em processo de investigação linguística.
                È importante que se preservem as dimensões estéticas e lúdicas próprias do mesmo, não esvaziando, assim, o seu significado.
               
    OBJETIVOS

    Objetivo geral: Possibilitar o acesso sistemático ao estudo do texto como unidade linguística de significado e proporcionar o avanço cultural dos alunos em relação a estilos e autores distintos da poesia brasileira.

    Objetivos específicos:
    • Desenvolver o gosto pela linguagem poética e pelo belo;
    • Valorizar os autores de poesia;
    • Valorizar obras literárias cobradas no vestibular e em processos seletivos como o PAES;
    • Identificar a estrutura de um poema;
    • Distinguir o poema de outros tipos de texto;
    • Elaborar o conceito de poesia;
    • Compreender a trama de sentidos que compõe o poema;
    • Encenar peça teatral com linguagem literária;

    ETAPAS

                     I.      Elaboração do projeto;
                   II.      Aulas expositivas (conceituação da poesia, estrutura/significado, principais autores brasileiros);
                  III.      Leitura de poemas e atividades relacionadas;
                IV.      Produção de escritos poéticos;
                  V.      Empreendimento do projeto:
    - Organização dos teatros;
    - organização do sarau poético;


    AUTORES DO PROJETO
    * Cecília Meireles
    Gonçalves Dias
    * Carlos Drummond de Andrade
    * Vinícius de Moraes
    * Jorge de Lima
    * Ariano Suassuna


    RECURSOS:
    • Data show
    • Caixa de som
    • Microfone
    • Papel TNT
    • Cordão de nylon
    • Faixas

    TEMPO SUGERIDO

    3º e 4º bimestres: 24/08 a 20/ 11 de 2010.
    Culminância: recital poético apresentado aos pais no dia da família no dia 20/11/10.

    AVALIAÇÃO

    ·         Envolvimento e participação do aluno.


    PROGRAMAÇÃO


    ·         Breve explanação sobre o conceito de poesia e sobre a importância da mesma;
    ·         Pequena explanação sobre Gonçalves Dias;
    ·         Encenação ou declamação de um poema de Gonçalves Dias / Canção do Exílio, Juca Pirama ou outro;
    ·         Breve explanação sobre o autor Carlos Drummond de Andrade;
    ·         Declamação do poema  “José”, de Carlos Drummond;
    ·         Breve explanação sobre Jorge de Lima;
    ·         Encenação do poema “Negra Fulô” (Jorge de Lima);
    ·         Apresentação musical, músicas de  autoria de Vinícius de Morais;
    ·         Breve explanação sobre Ariano Suassuna;
    ·         Encenação do Auto da Compadecida.



    RECURSOS:
    • Data show
    • Caixa de som
    • Microfone
    • Papel TNT
    • Cordão de nylon
    • Faixas

    segunda-feira, 1 de novembro de 2010

    Obras literárias - 1º ano


                              Poemas escolhidos, de Cláudio Manuel da Costa 

    Poemas Escolhidos, de Cláudio Manuel da Costa, é obra pertencente ao Arcadismo, gênero literário do clássico e do útil, da vida simples. Tem, também, características do Barroco, gênero do exagero e do excesso.

    O soneto VIII deixa-nos perceber, ainda, algo do Romantismo, pois retrata nos versos seu estado da alma. Percebe-se que esse inconfidente viajou pelo mundo das letras, deixando sua vida nas páginas da História.

    Poemas Escolhidos faz parte do livro Obras, publicado em 1768 e considerado o marco inicial do Arcadismo. O autor retrata sua melancolia, tristeza e sofrimento, pela rejeição da mulher amada e pelos constantes conflitos internos vivenciados. A poesia de Cláudio Manuel da Costa revela a fidelidade cultural à metrópole (civilização) e a fidelidade afetiva à terra natal (vida rústica). Os poemas mostram a vida do escritor, natural de Mariana, ex-Ribeirão do Carmo, encantado com as novidades renascentistas da Europa. O escritor lamenta não poder vivenciar de perto a nova cultura européia, o centro do saber cultural. No entanto, não consegue se distanciar das suas origens.

    Entre os temas apresentados, o poeta fala da paisagem, relacionando pedras e suas variantes. Há em seus versos penhas, penedos, penhascos, rochedos, paisagem sombria e crepuscular. Isto nos faz lembrar de sua difícil luta pelos ideais de liberdade e da perda da mulher amada. Daí a simbologia da pedra, sugerindo a dureza de uma vida. A decepção amorosa domina os seus sonetos. Volta, ainda, a falar em pedra, comparando-a à rudeza feminina. Comenta sobre uma pastora e um penhasco, indicando que a frieza da mulher é superior à da rocha. Sentimos, ao ler seus versos, que nenhuma mulher o acolheu, que vivia em uma eterna e constante decepção amorosa. A paisagem no livro é o retrato do seu estado de espírito.

    A linguagem dos sonetos é rebuscada, cheia de recursos estilísticos e figuras de linguagem definindo o que vivencia. Sonetos com imensa riqueza vocabular que retratam uma vida de tristezas, lutas, decepções. Vida que se acaba quando ele se enforca durante o processo movido pela coroa portuguesa. Nome que fica para sempre escrito na História e na Literatura Brasileira.
     Fonte: 
    http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/p/poemas_escolhidos


                             Sermão do Bom Ladrão


    O Sermão do Bom Ladrão, foi escrito em 1655, pelo Padre Antônio Vieira. Ele proferiu este sermão na Igreja da Misericórdia de Lisboa (Conceição Velha), perante D. João IV e sua corte. Lá também estavam os maiores dignitários do reino, juízes, ministros e conselheiros.

    Observa-se que em num lance profético que mostra o seu profundo entendimento sobre os problemas do Brasil – ele ataca e critica aqueles que se valiam da máquina pública para enriquecer ilicitamente. Denuncia escândalos no governo, riquezas ilícitas, venalidades de gestões fraudulentas e, indignado, a desproporcionalidade das punições, com a exceção óbvia dos mandatários do século 17.

    Vieira usou o púlpito como arauto das aspirações públicas, à guisa de uma imprensa ou de uma tribuna política. Embora estivesse na Igreja da Misericórdia, disse ser a Capela Real e não aquela Igreja o local que mais se ajustava a seu discurso, porque iria falar de assuntos pertinentes à sua Majestade e não à piedade.

    O padre adverte aos reis quanto ao pecado da corrupção passiva/ativa, pela cumplicidade do silêncio permissivo. O sermão apresenta uma visão crítica sobre o comportamento imoral da nobreza, da época.

    Eis alguns fragmentos:

    Levarem os reis consigo ao paraíso os ladrões, não só não é companhia indecente, mas ação tão gloriosa e verdadeiramente real, que com ela coroou e provou o mesmo Cristo a verdade do seu reinado, tanto que admitiu na cruz o título de rei.
    Mas o que vemos praticar em todos os reinos do mundo é, em vez de os reis levaram consigo os ladrões ao paraíso, os ladrões são os que levam consigo os reis ao inferno.


    Esta pequena introdução serviu para que Vieira manejasse os seus dardos contra aquele auditório repleto pela nobreza. E continuou enfático:

    A salvação não pode entrar sem se perdoar o pecado, e o pecado não se perdoa sem se restituir o roubado: Non dimittitur peccatum nisi restituatur ablatum.

    Suposta esta primeira verdade, certa e infalível; a segunda verdade é a restituição do alheio sob pena de salvação, não só obrigando aos súditos e particulares, senão também aos cetros e as coroas. Cuidam ou deveriam cuidar alguns príncipes, que assim como são superiores a todos, assim são senhores de tudo; e é engano. A lei da restituição é lei natural e lei divina. Enquanto lei natural obriga aos reis, porque a natureza fez iguais a todos; enquanto lei divina também os obriga; porque Deus, que os fez maiores que os outros, é maior que eles.

    Slides sobre o sermão do bom ladrão: 
    https://docs.google.com/present/view?id=0ASTic7odbTrdZGR6NTNtOXRfOTNmdnE2aDhncQ&hl=pt_BR&authkey=CPLN03Y
     Mais informações em:
    http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/s/sermao_do_bom_ladrao



    SERMÃO SOBRE OS PEIXES

    O sermão está organizado em seis capítulos e três partes: o Exórdio, que contém o capitulo I; a exposição e confirmação, que contém os capítulos II, III, IV e V e a peroração que contém o capitulo VI.

    No Exórdio, Padre António Vieira apresenta o conceito predicável, “Vós sois o sal da Terra”, e explica as razões pelas quais a terra está tão corrupta. Ou a culpa está no sal (pregadores), ou na terra (ouvintes). Se a culpa está no sal, é porque os pregadores não pregam a verdadeira doutrina, ou porque dizem uma coisa e fazem outra ou porque se pregam a si e não a Cristo. Se a culpa está na terra, é porque os ouvintes não querem receber a doutrina, ou antes imitam os pregadores e não o que eles dizem, ou porque servem os seus apetites e não os de Cristo.
    Ao apresentar o conceito predicável, Padre António Vieira, introduz o tema do sermão, mas apesar de tudo desvia-se do tema e preocupa-se apenas com a razão pela qual a terra está corrupta, partindo do principio de que a culpa é dos ouvintes. Consegue isto, uma vez que o sermão é proferido no dia de santo António, aproveitando assim o exemplo deste. Santo António não obtinha resultados da sua pregação e os homens até o quiseram matar, em vez de desistir resolveu pregar aos peixes. Assim se viu Padre António Viera, sem obter resultados, a terra continuava corrupta, resolvendo igualmente pregar aos peixes, seguido o exemplo de Sto António.
    Em primeira parte, o orador vai louvar as virtudes dos peixes e em seguida repreende-los.

    O capitulo II contempla os louvores aos peixes de carácter geral, recorrendo-se ao exemplo de Jonas para mostrar que os homens são muito piores que os peixes. Como suas qualidades temos:
    - Bons ouvintes / obedientes
    - Primeira criação de deus
    - Melhores do que os homens
    - Livres, puros, longe dos homens
    Estas qualidades, são por antítese os defeitos dos homens.
    Neste, como em todos os capítulos, há um exemplo prático de Sto António, para o louvar no seu dia.

    O capítulo III é igualmente de louvor aos peixes, mas agora de carácter particular. Padre António Vieira utiliza quatro peixes para mostras a relação entre o homem e o divino, como os peixes se dão a estes cuidados e os homens não pensam em tais coisas.
    Peixe de Tobias: Tem umas entranhas e um coração que expulsam os demónios e simboliza o poder purificador da palavra de Deus.
    Rémora: Peixe que quando se agarra e um navio tem força suficiente para o conduzir sozinha. Simboliza o poder da palavra do pregador – guia das almas.
    Torpedo: Produz descargas eléctricas que faz tremer o braço do pecador. Simboliza o poder da palavra de Deus, de fazer tremer os pecadores que pescam na terra tudo quanto encontram.
    Quatro – olhos: Tem dois pares de olhos, uns para cima e outros para baixo. Simboliza o dever dos cristãos em tirar os olhos da vaidade terrena, olhando para o céu sem esquecer o inferno.
    Todos estes louvores que Padre António Vieira faz aos peixes são antíteses aos defeitos dos homens, assim simbolizando os seus vícios.

    Seguidamente parte-se para as repreensões aos peixes, primeiramente de carácter geral (Cap. IV) e depois de carácter particular (Cap. V).
    No carácter geral, Padre António Vieira acusa os peixes de se comerem uns aos outros, recorrendo a um exemplo dos homens para explicar o que eles faziam. Assim, os homens praticam antropofagia social, ou seja exploração uns dos outros. O orador faz uma comparação entre a antropofagia ritual dos Tapuias (índios brasileiros) e a antropofagia social dos homens, considerando esta ultima mais grave que a anterior, porque muitas vezes procuram tanto a exploração que nem os mortos escapam. O mais grave de tudo é que são os grandes que comem os pequenos, ou seja são precisos muitos pequenos para alimentar um grande. Acusa-os igualmente de cegueira, vaidade e de terem a maldade.
    Estas repreensões são feitas com o objectivo de mudarem os homens, ou pelo menos fazê-los pensar, mesmo que não haja uma mudança rápida.
    Aqui, há também um exemplo prático de Sto António que nunca praticou antropofagia social e que trocou a riqueza pela simpleza.

    De carácter particular, Padre António Vieira usa quatro exemplos de peixes que se referem a tipos comportamentais. O roncador que simboliza os arrogantes, o pegador, que simboliza os oportunistas, o voador, que simboliza os ambiciosos e o pior de todos, o polvo, que simboliza o traidor e o hipócrita. Este último, tem uma aparência de santo e manso e um ar inofensivo, mas na essência é traiçoeiro e maldoso, é hipócrita e faz-se de amigo dos outros e no fim “abraça-os”. Neste capítulo são usados os exemplos de São Pedro, Sto Ambrósio, São Basílio e o Gigante Golias.

    Por fim, a despedida, no capitulo VI, onde o orador retoma os pregadores de que falava no conceito predicável, servindo-se dele próprio como exemplo alegando que não estava a cumprir a sua função. Alega também que ele (homens) e os peixes, nunca vão chegar ao sacrifício final, uma vez que os peixes já vão mortos e os homens vão mortos de espírito. Padre António Vieira diz que a irracionalidade, a inconsciência e o instinto dos peixes, são melhores do que a racionalidade, o livre arbítrio, a consciência, o entendimento e a vontade do homem.

    Slides
    http://www.screencast.com/t/1rl3P2ISS5

    Slides - Romances de Cordel
    https://docs.google.com/present/view?id=dhps6zzq_1cnwxcdhw
    Slides - O santo e porca
    https://docs.google.com/present/view?id=dhps6zzq_0cgngrrds

    Obras literárias - 2º ano

    Casa Velha, de Machado de Assis

    Casa Velha é de autoria de Machado de Assis e foi publicado em 1944, depois de sua morte. É um livro que levanta muitas discussões, tanto acerca de seu gênero, se é conto, novela ou romance, como do período em que foi escrito; ele destoa muito dos romances do autor do tempo da publicação do folhetim e apresenta pontos comuns com os considerados da primeira fase, ou seja, os anteriores ao Brás Cubas.

    A alegoria política/histórica é apenas uma possível dimensão do significado presente na trama. Casa velha é um drama de família, mas que Machado utilizou com o objetivo claro de refletir realidades sociais, e também políticas, mais amplas – na verdade, os acontecimentos políticos em si parecem ser reproduzidos pelas necessidades e limitações de um certo tipo de sociedade.

    A obra é um esboço de Dom Casmurro, pois apresenta, nas suas entrelinhas, questões políticas importantes, disfarçadas por uma história romântica na sua superficialidade. Vários fatores contribuem para dar a essa trama simples uma maior profundidade e ressonância. São caracteristicamente machadianos, pois o leitor desatento poderia interpretá-los erroneamente, ou não se dar conta deles.

    Sua narrativa é feita por uma das personagens, um padre, que precisa se instalar numa casa muito antiga, onde mora uma família de fidalgos, cujo patriarca foi um político importante e mulherengo. Casa Velha conta os meandros da vida familiar de um alto membro do governo do imperador Pedro II. Na obra a critica dos costumes é novamente o placo das preocupações de Machado de Assis. Desencaroçando as intrigas imperiais a mesquinhez da aristocracia tropical de Pedro II, da igreja, seu jogos de interesses e fogueira das vaidades.

    Machado de Assis talvez tenha sido um dos primeiros escritores a abordar o amor impossível entre um casal de irmãos que se apaixona sem conhecer seu laço de sangue, tema muito utilizado posteriormente por autores consagrados.

    O título é um tanto irônico, Casa velha, de fato é uma casa patriarcal de fins do século XVIII, mas que ainda nos anos da ação da história, 1838 e 1839, depois da Independência e do Primeiro Reinado, estava ainda muito viva. A ironia é que continuava atual também quando da sua escrita por Machado, fosse antes ou depois de Brás Cubas, como se precisasse de algo maior do que a força do capital comercial e financeiro e do “moderno” urbano para transformá-la. Um pequeno traço de sua fachada, que nos passa desapercebido por nos ser muito familiar, é significativo bastante para ilustrar a força de sua permanência e pode simbolizar o verdadeiro tema da história da casa velha: a mudança da fachada e dos exteriores, que não abandona nunca os valores que forjaram as concepções interiores de seus membros, ou seja, as camadas profundas que organizam e orientam as suas ações. Esses homens são portadores de uma mentalidade discriminatória, moldada por séculos de escravismo, que, por um lado, segmenta e segrega os homens e, por outro, desvirtua o impulso que poderia levá-los
    a sua superação, o da atração amorosa. Se o patriarca da casa velha pôde usar deste impulso para se aproveitar da mãe de Lalau para a própria satisfação sexual, o seu filho não pôde segui-lo para unir-se à filha de sua amante para o casamento comum.

    A casa, cujo lugar e direção não é preciso dizer, tinha entre o povo o nome de Casa velha, e era-o realmente: datava dos fins do outro século. Era uma edificação sólida e vasta, gosto severo, nua de adornos. Eu, desde criança, conhecia-lhe a parte exterior, a grande varanda da frente, os dous portões enormes, um especial às pessoas da família e às visitas, o outro destinado ao serviço, às cargas que iam e vinham, às seges, ao gado que saía a pastar. Além dessas duas entradas, havia, do lado oposto, onde ficava a capela, um caminho que dava acesso às pessoas da vizinhança, que ali iam ouvir missa aos domingos, ou rezar a ladainha aos sábados. (MACHADO DE ASSIS. Obra completa. Rio de Janeiro: Companhia José Aguilar Editora, 1974, v. I, p. 999.)

    As poucas coisas que não eram velhas na Casa, além de Lalau, eram os livros de Voltaire e Rousseau da biblioteca e, talvez também o padre narrador, que “os conhecia, não integralmente, mas no principal que eles deixaram”. O conhecimento deles pelo padre era um pouco mais do que um verniz modernizante, incidia na sua ação, mas não impediu que ele se surpreendesse, assim como o leitor, com a decisão firme e radical de Lalau pelo trabalho:9 a de não voltar para a casa velha, casar-se com o “Vitorino, o filho do cocheiro”, e de não querer uma solução acomodatícia.

    O objeto de Machado nesta novela ou romance era a permanência, a resistência do velho ao novo, da Casa Velha à ação do tempo. Em Casa velha a força do tempo poderia estar na emergência dos interesses e dos valores ligados às atividades comerciais e financeiras e seus agentes, mas que, praticamente e por razões já aventadas acima, não se faziam presentes. Talvez seja por isso que a ação decidida de Lalau, pareça um ato com boa dose de heroísmo, apesar de um tanto inglório, pois o que vence não é o amor, mas o valor pessoal, apoiado em princípios éticos de busca de independência e autonomia, num mundo que deixava pouca margem para isso.

    A obra é ambientada no ano de 1839. Assim, a Guerra dos Farrapos e a Maioridade de Dom Pedro II, aparecem diversas vezes na novela. O elo entre a rebelião no Rio Grande do Sul e a Maioridade permite-nos ver como a estrutura da trama de Casa Velha é paralela à da História política entre 1822 e 1840.

    Casa Velha, tanto quanto Dom Casmurro, apresenta uma análise que Machado faz sobre a sociedade carioca do século XIX. Encontramos uma personagem (Lalau) rompendo os tabus que separam a classe superior da inferior, assim como esta dos escravos.

    Há em Casa Velha possíveis elementos do cenário da infância e juventude de Machado de Assis. Uma explicação possível para essa relação, é a de que Machado, utilizando um pano de fundo tão pessoal, podia elaborar algo próximo a uma real e exata crítica do mundo que o alimentara e formara.

    Podemos resumir a história de Casa Velha da seguinte maneira: Dona Antonia, a senhora da Casa, tem um filho natural, Félix, rapaz educado, aparentemente inteligente e com um futuro predestinado de acordo com sua classe social. Lalau, a menina agregada, era como se fosse da casa, que a visitava com frequência, trazendo consigo sua leveza e juventude, foi educada e praticamente criada por Dona Antonia, que aparentemente lhe tinha muito carinho. Lalau e Félix se apaixonaram, o Cônego, homem das Luzes, que estava à casa em um trabalho intelectual, descobre a paixão e resolve intervir em favor desta. Dona Antonia, de acordo com o seu aprendizado, opõe-se, utilizando-se de uma não verdade, constrói a história de que Lalau e Félix são irmãos, impossibilitando assim a futura união. Sofrimentos, diante dessa informação, passam a nortear a vida dos apaixonados, inclusive do Cônego. Lalau se afasta da casa. O Cônego descobre a intenção de Dona Antonia, intercede novamente, agora junto à Lalau, e esta resolve seguir sua vida, feliz ou não, teria sido honesta.

    As palavras nos apresentam um romance tradicional, tem a bruxa que faz a mocinha sofrer, tem o mocinho romântico e tem até o mago, mas não tem o “E foram felizes para sempre”, tem a honestidade como fim, o fim de buscar o que se é, portanto não temos um protagonista com traços humanos, temos traços sociais, estáticos e naturalmente ordenados. Assim como nas histórias tradicionais, a mocinha e o mocinho, são os meios para que a bruxa e o mago exerçam seus poderes, e aqui não é diferente.

    Um século antes de Casa Velha, foi dito que o homem nasce livre, mas encontra-se sempre aprisionado. Essa “prisão” seria aprendida no processo de educação, tenderia a uma verdade, não isenta de mutação, sendo que ela, no processo da vida, estaria vinculada ao gosto, ao querer e consequentemente a um ser. Machado nos apresenta essas verdades e quereres, lhes dá nomes próprios e neles as possibilidades do ser.

    Dona Antonia “nascera dona de casa; [...] em todo o ministério do marido apenas duas vezes foi ao paço. [...] foi criada no Rio de Janeiro, naquela mesma Casa Velha, onde casou, onde perdeu o marido e onde lhe nasceram os filhos”. Essa seria a verdade de Da. Antonia juntamente com algum sentimento por Lalau que “vinha um pouco esbaforida, voando-lhe os cabelos, que eram curtinhos e em cachos, e quando Da. Antônia lhe perguntou se não estava cansada de travessuras, Lalau ia responder alguma coisa, mas deu comigo, e ficou calada; D. Antônia, que reparou nisso, voltou-se para mim. ‘Reverendíssimo, é preciso confessar esta pequena e dar-lhe uma penitência para ver se toma juízo. Olhe que voltou há pouco e já anda naquele estado. Vem cá, Lalau’”.

    E da monocromia se fazia a cor, e do credo à honra, se fazia a leveza, a partir das travessuras de Lalau. Da. Antonia, dona por natureza, tinha o seu brinquedo, o seu meio para ser. Como brinquedo, Lalau não era humana, assim, uma vez que não cumprisse o seu papel, atendendo às necessidades de sua dona, poderia ser colocada num canto qualquer e de qualquer maneira.

    O Cônego reconhecendo “que não tinha os dons indispensáveis ao púlpito” confessou-nos que “não acho do momento um modo melhor de traduzir a sensação que essa menina produziu em mim. Contemplei-a alguns instantes com infinito prazer. Fiei-me do caráter de padre para saborear toda a espiritualidade daquele rosto comprido e fresco, talhado com graça, como o resto da pessoa”. Estas eram as íntimas verdades confessadas pelo Cônego, que poderiam ser vivenciadas de fato por Félix que “não tinha certamente um plano de idéias, e apreciações originais; a particularidade dele era a clareza e retidão de espírito precisas para só recolher do que ouvia a parte sã e justa, ou, pelo menos, a porção moderada. Nunca andaria nos extremos, qualquer que fosse o seu partido”.

    E da policromia fez-se o direito de colorir o tédio e deu-se a persuasão, a partir da retidão de Félix. O Cônego, homem por natureza, tinha o seu álibi, em nome de Deus, o seu meio para ser. Como retido, Félix não era ator de sua história, assim, uma vez que não era dono de si mesmo, poderia ser vivido por outro.

    Da. Antonia continuaria monocromática, orando à honradez e dona de sua verdade aprendida. O Cônego talvez volte a clamar castidade. Félix seguiu o caminho reto que lhe ensinaram. Se quererão ser o que não são, honestamente não sei.

    Lalau, sem cor, sem papel definido, sem tradições, livre por natureza. Livre para construir a si mesma, para buscar o seu ser, a sua razão de ser e isso não foi apenas um querer.

    Personagens principais

    Lalau, a suposta protagonista, agregada por natureza, era como se fosse da Casa, “uma criatura adorável, espigadinha, não mais de dezessete anos, dotada de um par de olhos, como nunca mais vi outros, claros e vivos, rindo muito por eles, quando não ria com a boca, mas se o riso vinha juntamente de ambas as partes, então é certo que a fisionomia humana confirmava com a angélica, e toda a inocência e toda alegria que há no céu pareciam falar por ela aos homens”, era como se fosse filha, filha de Dona Antonia.

    Dona Antonia, a dona da Casa, dona por natureza, a representação da dona daquele tipo de Casa “governava esse pequeno mundo com muita discrição, brandura e justiça”, uniformizada e refém dela por ofício, ofício de Dona, dona de um filho, Félix.

    Félix, o mocinho, filho por natureza, aparentemente altivo e inteligente, “parecendo aceitar o conceito alheio, de tal modo que, às vezes, a gente recebia a opinião devolvida por ele, e supunha ser a mesma que emitira”, e de acostumado a ouvir, quis se fazer ouvir pelo breve amigo, o Cônego.

    Cônego, o nosso narrador, homem por natureza e por natureza homem. “Li as Memórias que outro padre, Luís Gonçalves dos Santos, o Padre Perereca chamado, escreveu do tempo do rei, e foi esse livro que me meteu em brios. Achei-o seguramente medíocre, e quis mostrar que um membro da igreja brasileira podia fazer coisa melhor”, se fez coisa melhor não sabemos, mas quis ser honesto.

    Fonte: Passeiweb
    Créditos: Alê Almeida, trabalho temático produzido para o Curso de Graduação em Sociologia e Política, FESPSP | Luiz Roncari, USP

    MACHADO, CONTO E CRÔNICAS
     SLIDES
    http://www.screencast.com/t/O56jIoKE7at

    Os Melhores Poemas - Gonçalves Dias
                     
     Gonçalves Dias foi um dos poucos poetas que soube dar um toque realmente brasileiro na sua poesia romântica, mesmo escrevendo sobre todos os temas mais caros ao Romantismo europeu, como o amor impossível, a religião, a tristeza e a melancolia. 
                      Suas paixões são reveladas muitas vezes num tom ingênuo e melancólico, mas muito menos tempestuosas e depressivas que as dos poetas da segunda geração romântica. 
                      A morte e a fuga do real não lhe são tão atraentes, principalmente quando esse real inclui as belezas naturais de sua terra tão amada. Suas musas parecem se fundir às belas imagens e fragrâncias da natureza, lembrando várias vezes a própria pátria, que é cantada com toda a sua exuberância e saudade, revigorada pelo seu sentimento nacionalista. 
                      A saudade, aliás, é a grande mola propulsora que leva o poeta a escrever em Coimbra o poema que é considerado por muitos a mais bela obra-prima de nossa literatura: A Canção do Exílio. 
    O nome de Gonçalves Dias está mais ligado, porém, com a poesia indianista. Isso se deve ao fato de ninguém ter conseguido criar versos tão líricos, belos e magníficos quantos os que o poeta maranhense dedicou aos costumes, crenças, tradições dos índios brasileiros, por ele considerados como verdadeiros representantes de nossa cultura nacional. 
                      A figura do indígena ganha tons míticos e épicos dentro da poesia, capazes de colocar à tona toda a sua harmonia com a natureza, sua honra, virtude, coragem e sentimentos amorosos, mesmo que isso muitas vezes signifique uma imagem idealizada e exacerbada de sua vida quotidiana. 
                      É, apesar de todo esforço nacionalista, o resquício da visão que os povos da Europa tinham do selvagem da América, aliada a uma tentativa de conciliação entre a sua imagem e os ideais e honras do cavaleiro medieval europeu, fartamente cantado no Romantismo.
               Mais do que uma vigorosa exaltação nacionalista, alguns dos versos que Gonçalves Dias dedicou aos índios servem e muito para denunciar os três séculos de destruição que os colonizadores impuseram às suas culturas. 
    Obra disponível em: